A Semana de Moda de Paris Primavera/Verão 2026 chegou ao fim, uma temporada de grandes estreias e visões renovadas. A aguardada primeira coleção de Jonathan Anderson para a Dior e a poética virada de Matthieu Blazy para a Chanel marcaram um momento de renascimento para as grandes maisons da moda. Enquanto isso, declarações fortes vieram de Valentino, Saint Laurent, Loewe, Dries Van Noten, Balenciaga e Miu Miu, enquanto os designers buscavam um novo significado em um mundo que navegava pela incerteza criativa e financeira.
Em Busca de Significado
Para Matthieu Blazy, na Chanel, tudo começa com o amor: um amor transformador e vivificante, o tipo de amor que outrora impulsionou a própria Coco Chanel. Sob os planetas suavemente brilhantes suspensos sobre o Grand Palais, Blazy reinventou a silhueta da Chanel: jaquetas de tweed cropped, saias amplas e rodadas, camisas brancas impecáveis. O resultado não foi apenas uma coleção, mas um cosmos inteiro, construído com base na harmonia e no afeto.
Na Valentino, Alessandro Michele encontrou esperança na escuridão. Sua coleção foi inspirada em uma carta de 1941 do cineasta Pier Paolo Pasolini, escrita em plena guerra, descrevendo sua crença em vaga-lumes e no amor. À medida que as luzes se apagavam no final do desfile, as modelos ergueram o olhar para o céu, em busca de um vislumbre de luz.
Satoshi Kondo, da Issey Miyake, questionou o que aconteceria se nossas roupas ganhassem vida. O resultado foi ao mesmo tempo filosófico e intimista: peças que se moviam como extensões do corpo, fluidas e cheias de alma, trazendo cor e poesia à vida cotidiana.
Em Alaïa, Pieter Mulier examinou a tensão entre desejo e realidade, passado e futuro, masculinidade e feminilidade. Suas peças — sensuais, porém discretas — "gritavam de dor", como ele mesmo disse, revelando e ocultando a forma feminina em um só fôlego.
Para a Miu Miu, Miuccia Prada se voltou para o trabalho em si — e para as mulheres que mantêm o mundo funcionando. Aventais, jaquetas de couro maleáveis e calças utilitárias evocavam trabalho e dedicação, uma homenagem àquelas que se dedicam ao que amam.
Na Dries Van Noten, o otimismo tomou forma nas cores. Seguindo o legado do falecido designer, Julian Klausner celebrou o brilho e a padronagem, revivendo as estampas óticas dos anos 60. Da mesma forma, Michael Ryder, da Celine, sonhou com um verão sem fim, exibindo lenços de seda e minissaias florais em formato de sino em cores primárias vibrantes. Para a Loewe, os designers estreantes Jack McCollough e Lazaro Hernandez buscaram a simplicidade — um novo começo para a grife de 180 anos — despojando formas e tons de volta à sua essência.
Em outro lugar, Guram Gvasalia, da Vetements, ergueu um espelho de humor negro para se exibir, parodiando tropos familiares (e talvez as palhaçadas de Kanye West) antes de encerrar com uma noiva de preto, chorando por um mundo que se perdeu.
O estilista parisiense Alain Paul, ex-bailarino de balé clássico, encenou seu espetáculo como um exame de admissão — convidados sentados em mesas compridas como examinadores, assistindo às apresentações de modelos-bailarinos. Tornou-se uma metáfora para as provações da vida, culminando em uma explosão de liberdade quando os artistas saíram da formação para dançar em meio à multidão.
E no dia da inauguração, Yohji Yamamoto falou abertamente à Business of Fashion sobre a obsessão equivocada do luxo com o lucro em detrimento do propósito. Sua coleção, dedicada ao seu falecido amigo Giorgio Armani, foi um ato silencioso e pungente de lembrança.
A Camisa Branca Reescrita
Entre os momentos de destaque da temporada: a estreia de Matthieu Blazy na Chanel. Começando literalmente do zero, ele colocou a camisa branca no centro de sua coleção, confeccionada em colaboração com a lendária grife Charvet. A própria Coco adorava pegá-las emprestadas do guarda-roupa masculino — Karl Lagerfeld também era conhecido por comprá-las às dúzias. Blazy as combinou com saias longas e impactantes em preto ou carmesim.
Na Saint Laurent, Anthony Vaccarello combinou blusas brancas com laços oversized e saias lápis de couro elegantes. Sarah Burton, da Givenchy, reinventou a camisa de escritório como vestidos esculturais; sua outra ideia foi criá-los em couro de bezerro incrivelmente macio.
Nicolas Ghesquière, da Louis Vuitton, evocou a Hollywood dos anos 1940: golas altas e cortes elegantes e alfaiataria cinematográfica. Alessandro Michele, da Valentino, ofereceu versões em musselina transparente adornadas com flores no pescoço, enquanto Zimmermann revisitou o romantismo com blusas de algodão com mangas bufantes, confeccionadas em tecido resistente para camisas.
Volta para o Futuro
A estreia de Jonathan Anderson na Dior revisitou a história com reverência e inteligência. Fazendo referência a Christian Dior e John Galliano, ele brincou com chapéus de pirata, fitas, alforjes e delicadas crinolinas de renda — estrutura suavizada.
Em outros lugares, Victor Weinsanto reviveu a corseteria e a crinolina em movimento, enquanto Seán McGirr, da Alexander McQueen, acenava para jaquetas militares dignas de príncipes animados. Stefano Gallici, da Ann Demeulemeester, seguiu o exemplo com alfaiataria bem definida, imitando o passado e olhando para o futuro.
A visionária japonesa Anrealage deu vida literal a silhuetas do passado, criando crinolinas que pulsam como o coração para o futuro. A estilista Cecilie Bahnsen, de Copenhague, comemorou o décimo aniversário de sua marca com uma colaboração com a The North Face, provando que o volume pode ser totalmente moderno quando confeccionado com tecidos técnicos.
Cor em ascensão
A próxima primavera será repleta de cores. Na Miu Miu, os convidados se acomodaram em mesas multicoloridas, balançando as pernas alegremente, enquanto Miuccia Prada apresentava uma coleção alegre de aventais florais e malhas em tons quentes.
Chemena Kamali, da Chloé, exibiu vestidos assimétricos e tops curtos em plena floração, enquanto Glenn Martens, estreando na Maison Margiela, trabalhou literalmente com buquês para recriar estampas florais em movimento.
A cor, é claro, sempre foi a língua nativa de Pierpaolo Piccioli. Para sua estreia na Balenciaga, ele pintou com fúcsia, carmesim, amarelo manteiga e rosa pó. Haider Ackermann, para sua segunda coleção para Tom Ford, expandiu seu universo em preto e branco para incluir verde, azul-celeste, laranja e azul-royal.
O Retorno do Mini
Os comprimentos mini reinaram supremos. Na Dior, Jonathan Anderson ofereceu minissaias jeans e de terno; Celine amarrou saias com nós em formato de rosas; Isabel Marant optou por crochês e shorts em tons terrosos.
A nova diretora criativa da Marni, Merryl Rogge, propôs shorts estilo lingerie para combinar com tops curtos, enquanto a vencedora do Prêmio LVMH, Ellen Hodakova, criou minivestidos com tudo o que se possa imaginar — luvas, cintos, livros e até zíperes. E Miuccia Prada apostou pesado com um desfile de microvestidos brilhantes bordados com pedras e cristais exclusivos.
Texto: Lidia Ageeva